A divisão de colônias é a técnica mais importante para quem deseja expandir um meliponário de forma sustentável e legalizada. Ao contrário da captura de enxames na natureza — prática proibida pela legislação ambiental brasileira —, a multiplicação por divisão de ninhos permite ao meliponicultor aumentar seu plantel sem prejudicar as populações silvestres de abelhas sem ferrão.
Neste guia completo, vamos detalhar passo a passo como realizar a divisão de colônias das espécies mais criadas no Brasil: jataí (Tetragonisca angustula), mandaçaia (Melipona quadrifasciata) e uruçu (Melipona scutellaris), com técnicas adaptadas para cada espécie e os modelos de caixa INPA e PNN.
Quando Realizar a Divisão
A época do ano é determinante para o sucesso da divisão. Realizar o procedimento no momento errado pode resultar na morte de uma ou ambas as colônias.
Melhor Período
A primavera e o início do verão — setembro a dezembro na maior parte do Brasil — são os meses ideais para a divisão. Nesse período:
- A flora apícola está em plena florada, garantindo oferta abundante de néctar e pólen
- As temperaturas são favoráveis ao desenvolvimento das crias
- As colônias estão naturalmente mais fortes e populosas
- Há maior probabilidade de existirem realeiras (células reais) nos favos de cria
Evite absolutamente divisões no outono e inverno, quando as colônias precisam de toda sua população para manter a temperatura do ninho e sobreviver ao período de escassez. Nosso guia sobre manejo de outono detalha os cuidados necessários nessa estação, e o artigo sobre proteger colmeias no frio explica por que colônias fracas são vulneráveis.
Sinais de que a Colônia Está Pronta
Uma colônia só deve ser dividida quando apresentar indicadores claros de vigor:
- População abundante: grande número de obreiras entrando e saindo da entrada
- Favos de cria completos: múltiplos discos ou cachos de favos com crias em diferentes estágios (ovos, larvas e pupas)
- Potes de alimento cheios: reservas de mel e pólen bem abastecidas nos potes de cerume
- Presença de realeiras: células reais indicam que a colônia está naturalmente preparada para produzir novas rainhas
- Ausência de pragas e doenças: confira se não há sinais de forídeos, pilhagem ou outras pragas antes de dividir
Materiais Necessários
Antes de iniciar a divisão, prepare todos os materiais:
- Caixa racional nova (INPA ou PNN, conforme o modelo utilizado) — veja nosso guia de tipos de colmeias
- Fita crepe ou fita adesiva larga
- Espátula ou formão apícola
- Recipiente limpo para transferência de potes
- Cerume ou própolis para vedação
- Suporte ou cavalete para a nova caixa
Os equipamentos básicos de proteção não são obrigatórios para abelhas sem ferrão, mas luvas finas podem ajudar a proteger os favos durante o manuseio.
Método Tradicional de Divisão: Passo a Passo
O método tradicional é o mais utilizado por meliponicultores no Brasil. Consiste em dividir manualmente os favos de cria e potes de alimento entre a colônia-mãe e a nova colônia.
Passo 1: Preparação
Escolha um dia ensolarado, sem vento e com temperatura acima de 22°C. Realize o procedimento pela manhã (entre 8h e 10h), quando boa parte das campeiras está fora coletando.
Passo 2: Abertura da Colônia-Mãe
Abra a caixa com cuidado usando a espátula. Identifique os componentes internos:
- Favos de cria: discos ou cachos contendo ovos, larvas e pupas
- Potes de cerume: recipientes esféricos contendo mel e pólen
- Batume e cerume: estruturas de vedação feitas de própolis e cera
Passo 3: Divisão dos Favos de Cria
Este é o passo mais crítico. Transfira para a caixa nova:
- Metade dos favos de cria, preferencialmente os que contêm pupas próximas à emergência (favos mais escuros e com operculação mais antiga)
- Pelo menos uma realeira, se houver — isso garante a produção de uma nova rainha na colônia-filha
- Manuseie os favos sempre na posição horizontal para não danificar as larvas
Passo 4: Distribuição dos Potes de Alimento
Transfira cerca de um terço dos potes de mel e pólen para a nova caixa. A colônia-mãe pode repor suas reservas mais rapidamente porque mantém a rainha fecundada e a maioria das campeiras. A colônia-filha precisa de alimento suficiente para sustentar as crias até que novas obreiras nasçam e comecem a forragear.
Passo 5: Fechamento e Vedação
Feche ambas as caixas com firmeza e vede todas as frestas com fita crepe ou cerume. A vedação é fundamental para evitar a pilhagem por outras espécies e manter a termorregulação do ninho.
Passo 6: Posicionamento
Coloque a colônia-filha no local onde estava a colônia-mãe. Mova a colônia-mãe para uma posição nova, a pelo menos 3 metros de distância. Dessa forma, as campeiras que retornam do campo entram na colônia-filha, reforçando sua população nos primeiros dias críticos.
Método de Perturbação Mínima
Desenvolvido por pesquisadores brasileiros, esse método permite dividir a colônia em poucos minutos sem manusear os favos diretamente. É especialmente indicado para caixas do modelo INPA, que possuem módulos empilháveis.
Como Funciona
- Abra a caixa e identifique o módulo superior do ninho, que geralmente contém os favos de cria mais maduros
- Separe o módulo superior e coloque-o sobre uma nova base (sobreninho)
- Adicione um módulo vazio na colônia-mãe para reposição do espaço
- Vede ambas as caixas e posicione conforme descrito no método tradicional
A grande vantagem é a recuperação acelerada do enxame e a menor probabilidade de incidência de pragas após a divisão, já que os favos não são manuseados diretamente.
Cuidados Específicos por Espécie
Cada espécie de abelha sem ferrão tem suas particularidades, e a técnica de divisão precisa ser adaptada.
Jataí (Tetragonisca angustula)
A jataí é a espécie mais popular entre meliponicultores iniciantes. Por ser pequena e resistente, aceita divisões com relativa facilidade:
- Colônias fortes de jataí podem ser divididas a partir de 4 a 5 discos de cria
- A entrada característica (tubo de cerume) deve ser reconstruída pela colônia-filha — não tente transferi-la
- Jataís são mais tolerantes a variações de temperatura, permitindo divisões em dias um pouco mais frescos
- Recuperação estimada: 2 a 3 meses para ambas as colônias
Mandaçaia (Melipona quadrifasciata)
A mandaçaia exige mais cuidado na divisão por ser mais sensível ao manejo:
- Aguarde até que a colônia tenha pelo menos 6 discos de cria antes de dividir
- Mandaçaias produzem rainhas virgens em maior quantidade que outras espécies (devido ao sistema de determinação de castas), o que facilita a obtenção de realeiras
- Mantenha a colônia-filha em local sombreado e protegido do vento
- Recuperação estimada: 3 a 4 meses
- Confira o guia completo de mandaçaia para informações detalhadas sobre a espécie
Uruçu (Melipona scutellaris)
A uruçu amazônica é a maior produtora de mel entre as abelhas sem ferrão brasileiras, mas também a mais exigente:
- Divida apenas colônias muito fortes, com 8 ou mais discos de cria
- A uruçu é sensível a temperaturas baixas — realize a divisão apenas em dias com mínima acima de 20°C
- Transfira uma quantidade maior de potes de alimento (até metade) para compensar o maior consumo da espécie
- Considere fornecer alimentação artificial nos primeiros dias após a divisão
- Recuperação estimada: 4 a 6 meses
Cuidados Pós-Divisão
O período logo após a divisão é crítico para a sobrevivência da colônia-filha. Siga estas orientações:
Primeira Semana
- Não abra as caixas sob nenhuma hipótese
- Verifique apenas externamente se há atividade na entrada
- Mantenha a colônia-filha protegida de chuva direta e sol intenso
- Observe se há tentativas de pilhagem por outras espécies
Primeiro Mês
- Faça uma inspeção rápida após 15 a 20 dias para verificar se há postura (sinal de que a rainha foi fecundada após o voo nupcial)
- Se não houver postura, aguarde mais uma semana antes de intervir
- Complemente com xarope de açúcar (proporção 1:1 em peso) se os potes de alimento estiverem baixos — veja detalhes em nosso guia sobre alimentação artificial no outono
Primeiros Três Meses
- Evite dividir a colônia-mãe novamente antes de completar seis meses de recuperação
- A colônia-filha começará a produzir mel somente após 6 a 12 meses, dependendo da espécie e das condições ambientais
- O mel de abelhas sem ferrão é um produto de alto valor — a paciência no manejo é recompensada
Erros Comuns que Devem Ser Evitados
A taxa de fracasso em divisões geralmente está associada a erros básicos que podem ser facilmente prevenidos:
- Dividir colônias fracas: a colônia-mãe deve estar visivelmente forte e saudável
- Época errada: nunca divida no outono ou inverno — veja nosso guia de preparação para o outono
- Manuseio brusco dos favos: favos de cria são extremamente frágeis; movimentos bruscos matam larvas e pupas
- Não vedar frestas: qualquer abertura atrai forídeos e pode facilitar a pilhagem
- Transferir poucos favos de cria: a colônia-filha precisa de massa crítica de crias para gerar obreiras suficientes
- Ignorar a legislação: a criação de abelhas sem ferrão exige cadastro no IBAMA/órgão ambiental estadual — produzir e vender colônias sem registro é infração ambiental
- Dividir e esquecer: o monitoramento pós-divisão é essencial nas primeiras semanas
Aspectos Legais da Multiplicação
A multiplicação de colônias de abelhas sem ferrão para venda é uma atividade regulamentada. De acordo com a legislação apícola brasileira, é necessário:
- Registro do meliponário no órgão ambiental estadual (IBAMA/ICMBio)
- Origem legal das matrizes (colônias-mãe) comprovada
- Nota fiscal ou documento de origem para comercialização de colônias
A regulamentação dos meliponários vem sendo aprimorada nos estados, com prazos de cadastro que variam conforme a legislação local. Manter-se regularizado é fundamental tanto para a legalidade da atividade quanto para a conservação das espécies nativas.
Para quem está começando, nosso guia sobre como iniciar na meliponicultura e o artigo sobre apicultura urbana trazem orientações sobre os primeiros passos.
Perguntas Frequentes
Quantas vezes posso dividir a mesma colônia por ano?
O ideal é realizar no máximo uma divisão por colônia por temporada (primavera-verão). Colônias muito fortes de jataí podem suportar duas divisões com intervalo de pelo menos três meses, mas para mandaçaia e uruçu, uma divisão anual é o limite seguro para garantir a recuperação completa.
O que fazer se a colônia-filha não aceitar a rainha?
Se após 30 dias não houver sinais de postura na colônia-filha, é possível introduzir um favo de cria jovem (com ovos e larvas) da colônia-mãe. As obreiras podem produzir uma nova rainha a partir dessas crias. Caso o problema persista, una a colônia-filha de volta à mãe para não perder as obreiras.
Posso usar o método de perturbação mínima com caixas PNN?
O método de perturbação mínima foi desenvolvido para caixas modulares como a INPA. Para caixas PNN (modelo português), o método tradicional com divisão manual dos favos é mais indicado, já que a estrutura interna não permite separação modular. Adaptar o manejo ao tipo de colmeia é essencial — veja as diferenças no nosso guia de tipos de colmeias.
Quanto tempo leva para uma colônia dividida começar a produzir mel?
A colônia-filha geralmente leva de 6 a 12 meses para iniciar a produção de excedente de mel, dependendo da espécie. Jataís se recuperam mais rápido (6 a 8 meses), enquanto uruçus podem precisar de até 12 meses. A colônia-mãe retoma a produção normal em 2 a 4 meses se estiver bem manejada e houver boa oferta de florada.